Corrida de São Silvestre 2009

Coroando o ano de corridas, não há melhor prova, nem mais esperada, do que a tradicional São Silvestre (SS).

Quase não me inscrevi, por conta de dúvidas no planejamento pessoal para a virada do ano. Fui empurrando com a barriga, e finalmente preenchi o cadastro on-line no último dia destinado à inscrição pela organização da prova.

Quando finalmente, alguns dias depois,  foi disponibilizado o meu número de peito, 21.238, fiquei surpreso, pois havia a previsão de um limite máximo de 20 mil corredores a serem inscritos na prova. Pelo regulamento da prova, as inscrições seriam disponibilizadas até o último dia estipulado, ou até que fosse atingido o número limite de atletas inscritos.

Pude supor então que até a véspera da data limite não havia 20 mil inscritos, e que o excesso se dera pela quantidade de inscrições no último dia. Lembrei daquele velho ditado nacional de que brasileiro sempre deixa tudo para o último dia. E fiquei feliz pela sorte de ter conseguido me inscrever “no apagar das luzes”.

 Parti para Sampa na véspera da corrida,  a fim de pegar o kit da prova, ficando alojado no Hotel de Trânsito do CPOR. Tenho preferido me alojar lá, não só pelas excelentes instalações e diária em conta, mas também pela proximidade do metrô (a cerca de 10 min a pé da estação Santana) que permite me deslocar com facilidade em São Paulo.

 Após me alojar, vi que tinha pouco mais de uma hora e meia para pegar o kit. Valendo-me do metrô, desci na Estação Conceição, e caminhei uns 20 min até o Ginásio Poliesportivo Mauro Pinheiro, local da entrega do kit.

 Na saída do ginásio, dois rapazes, que também tinham acabado de pegar o kit, puxaram assunto comigo, comentando que seria ótimo se no dia seguinte o tempo também estivesse nublado, como naquele momento. Concordei.  Curioso, pelo sotaque diferente deles, perguntei de onde eram. Responderam que eram natalenses e que tinham vindo com suas esposas e grupo de amigos passar o reveillon em Sampa, aproveitando também para participar da São Silvestre. Comentei que também era potiguar e que fazia mais de 10 anos que não aparecia na terrinha.  Seguimos conversando até perto do metrô, onde nos despedimos com votos de boa corrida para todos. É sempre uma feliz coincidência encontrar conterrâneos, particularmente em momentos como aquele.

 No dia seguinte, a rotina foi um pouco diferente de outras corridas que participei no ano, pois a maioria esmagadora delas teve largada às 08:00h. Com a largada da SS à tarde, pude assistir filme até tarde e acordar sem maiores preocupações com o horário. Com mais calma, fui à rodoviária comprar antecipadamente a passagem de volta para Campinas e voltei ao hotel para me “concentrar” para a corrida.

 No horário planejado, segui em direção à Av. Paulista. No metrô, mais corredores  embarcavam a cada  estação, e dentre eles um me chamou a atenção pela sua vivacidade e alegria, sentando num banco próximo ao meu. Tratava-se de um “jovem senhor”, trajado com camiseta e calção do São Paulo Futebol Clube. Inquieto, puxei assunto com ele, e ali fiquei conhecendo o Seu Osvaldo, também conhecido por Zagalo, por sua semelhança com o famoso técnico de futebol. Disse-me que já tinha perdido as contas de quantas SS já tinha corrido e foi me contando a sua longa vivência em corridas de rua, até chegarmos na Av. Paulista, onde nos separamos com votos recíprocos de sucesso na corrida. Uma figuraça, que no alto dos seus 70 anos de idade é, com certeza, um grande exemplo a ser seguido pelos mais  jovens, na busca da saúde e da alegria de viver.

 Fui me posicionar para esperar a largada, e aos poucos, digo, “aos muitos” foi crescendo a multidão de corredores que participariam do grande evento.

 O clima, indiferente à torcida de todos, não estava dos mais apropriados para a corrida: quente, abafado e com poucas nuvens. O sol estava ali, bem presente, mostrando a todos que tinha vindo para ficar e nos acompanhar por todo o trajeto. Senti que teria uma grande desafio pela frente, mas isso só aumentava a minha satisfação em estar ali.

Naquele momento, não éramos mais uma simples multidão. Éramos quase que uma confraria,  de mais de 25 mil pessoas (incluídos vários corredores não inscritos) com um mesmo e grande objetivo. Alegres, eufóricos e ansiosos pela sirene de largada. Só quem já participou de um evento dessa magnitude conhece o sentimento único que se apodera  de tantas pessoas, das mais diversas idades, origens, histórias de vida e recantos do país, tão diferentes e ao mesmo tempo tão irmanadas, envolvidas e motivadas pela grande festa qua já se iniciara algumas horas mais cedo, com a chegada dos primeiros corredores na Av Paulista, em busca de melhores posições de largada.

 E finalmente, largamos em direção ao pórtico e início dos 15 Km de asfalto mais populares e desejados pelos amantes da corrida tupiniquins.

Como era a minha segunda SS, eu já estava com a ousadia, quase soberba, de me sentir um corredor experiente em São Silvestres. Já não me preocupava  mais com o sol que nos acompanharia,  com o cansaço que viria no decorrer da prova, e nem com os 2 Km de subida da Brigadeiro no final da corrida. Já tinha vencido tudo isso antes e conhecia as minhas possibilidades e aprendido a não estendê-las a situações-limite. Mas essa experiência foi adquirida sobretudo nas muitas provas por mim realizadas nos 12 meses que separaram as duas SS. Agora, já sabia a velocidade que deveria imprimir para que a corrida me fosse agradável, mas sem perder a pretensão e o foco em fazer uma boa prova. E uma boa prova para mim naquela dia significava prioritariamente chegar bem, com o coração batendo num ritmo confortável, com a respiração controlada e com os músculos íntegros após cerca de cem minutos de corrida. O tempo de prova teria sua importância relativa, mas havia aprendido, com o acúmulo de corridas e treinos em minha bagagem, a considerá-lo apenas como uma mera consequência, e não como uma meta. E essa consciência veio principalmente após a corrida  Mizuno 10 milhas, em que “voei baixo” para as minhas possibilidades musculares, que se traduziram em um ótimo tempo, que naquela época eu encarava como meta, mas que me cobraram com uma lesão na panturrilha, que me abateu momentaneamente e me custou horas de fisioterapia e o dissabor de ficar quase um mês sem correr.

 Depois de ler e reler o NUNO COBRA, em seu ótimo “A Semente da Vitória” e nos seus artigos publicados na revista O2,  e ainda pela experiência por mim vivida, finalmente me convenci de que somente os corredores profissionais devem valorizar a busca insana e desenfreada em baixar tempos e melhorar índices. Afinal, além de ser o ganha-pão deles, tais corredores possuem condições orgânicas diferenciadas, treinamentos supervisionados por profissionais especializados, alimentação e sono rigorosamente controlados e preparação espartana para as suas provas. Mas apesar de tudo isso, ainda me questiono sobre o efeito a longo prazo que esse esforço de correr no limite causará em seus músculos e corações. Será que terão uma velhice tão espetacular quanto as suas marcas?

Voltando à SS, o desfecho da corrida foi dentro do planejado. No final, me senti como um poderoso queniano, cruzando a linha de chegada em primeiro lugar. E junto comigo, outros vinte mil primeiros lugares, cada um com suas histórias pessoais de superação e o desejo incontido de nos encontrarmos novamente em uma próxima corrida. E continuarmos sempre legítimos AMANTES DA CORRIDA.

 RESUMO:

Tempo Final: 1:37:00.00

Classificação Geral Cat Masc:  8.823 de 14.923 (59,1%)

Tênis: Asics Nimbus 11

Onde está Wally?

 

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